Mundo

Renovação de frigoríficos dos EUA pela China pode favorecer carne do Brasil

A China renovou a habilitação de centenas de frigoríficos dos Estados Unidos para exportação de carne bovina ao país asiático, em um movimento que sinaliza reaproximação comercial entre as duas potências e pode alterar o fluxo global do mercado.

Apesar da renovação, analistas avaliam que o Brasil pode seguir favorecido no curto prazo, tanto pela competitividade da carne brasileira quanto pela demanda chinesa ainda aquecida.

Após a viagem do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump à China, o governo chinês anunciou a renovação da habilitação de mais de 400 frigoríficos norte-americanos para exportação de carne bovina ao mercado local, além da autorização de outros 77 estabelecimentos, enquanto apenas 38 plantas ficaram de fora do processo de revalidação.

Segundo o analista de mercado, Rodrigo Costa, o movimento ocorre logo após a aproximação diplomática entre Trump e o presidente chinês Xi Jinping e passou a ser interpretado pelo mercado internacional como um sinal de distensão dentro da guerra comercial entre as duas maiores economias do mundo.

O analista destaca ainda que a decisão marca uma mudança relevante em relação ao cenário do ano anterior, quando Pequim endureceu as barreiras comerciais e sanitárias contra os Estados Unidos em resposta ao tarifaço adotado pela administração Trump. Naquele período, a China deixou de renovar o registro de cerca de 390 frigoríficos norte-americanos, o que praticamente paralisou os embarques de carne bovina dos Estados Unidos para o país asiático.

Rodrigo Costa aponta que, em janeiro de 2026, as exportações americanas de carne bovina para a China registraram queda de 94% em volume e 97% em valor na comparação anual. “O vazio deixado pelos americanos acabou sendo rapidamente ocupado pelos exportadores sul-americanos, especialmente o Brasil, que consolidou ainda mais sua posição como principal fornecedor de carne bovina aos chineses”, afirmou em entrevista à CNN Agro.

Apesar da retomada das habilitações pela China, analistas do setor avaliam que os Estados Unidos ainda enfrentam limitações estruturais importantes para recuperar participação relevante no mercado global de carne bovina no curto prazo.

“Dados do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) mostram que o rebanho bovino total dos Estados Unidos recuou para o menor nível desde 1951 e está em 86,2 milhões de cabeças. O plantel de vacas de corte caiu para 27,6 milhões de cabeças, menor patamar desde 1961. Segundo Costa, o país enfrenta um processo prolongado de ajuste no setor. “O país vive sete anos consecutivos de liquidação pecuária em meio a secas severas, custos elevados de produção, juros altos e preços recordes do boi gordo”, afirma.

Com menos animais disponíveis e preços elevados no mercado interno, os Estados Unidos passaram a depender cada vez mais de importações para abastecimento doméstico, alterando seu papel no comércio global de proteínas. O Diretor da HN Agro, Hyberville Neto, avalia que essa mudança reduziu a relevância dos americanos como exportadores para a China.

“Os Estados Unidos não já não estavam exportando volumes importantes para a China. Na verdade, eles têm sido cada vez mais compradores de carne do que vendedores”, afirma. “Em alguns anos eles importaram mais do que exportaram justamente por causa da redução do rebanho”, completa.

Rodrigo Costa reforça que esse quadro limita a capacidade de reação dos Estados Unidos no comércio internacional. “Mesmo com as portas reabertas, os americanos vão disputar um mercado gigante com menos produto disponível do que tinham antes e a um preço significativamente superior ao brasileiro no mercado internacional”, afirma.

Segundo ele, a valorização da arroba americana acabou reforçando o ciclo de retenção negativa dentro da pecuária. “O boi nunca valeu tanto, mas justamente por isso o produtor prefere vender a recompor o rebanho”, explica.

Fonte: CNN Brasil