Saúde

Verão movimenta Natal e impulsiona a prática de esportes ao ar livre

O verão chega a Natal como um convite quase automático ao movimento. Com dias mais longos, sol predominante e temperaturas elevadas, a cidade e a região metropolitana no litoral se transformam em grandes cenários a céu aberto para quem busca sair da rotina, cuidar da saúde e ocupar praias, praças e vias urbanas com práticas esportivas. Mais do que lazer, o período tem sido marcado por um aumento consistente na adesão a atividades físicas ao ar livre, impulsionando modalidades como surfe, vôlei de praia, beach tennis e corrida, que se espalham por diferentes zonas e mobilizam públicos de diferentes idades e perfis.

Esse estímulo sazonal encontra respaldo na avaliação de profissionais da área. Para o educador físico Fernando Oliveira, especialista em fisiologia do exercício, o contexto climático exerce influência direta na disposição das pessoas. Segundo ele, o ambiente externo amplia os ganhos da prática regular, reunindo benefícios físicos e mentais que vão além do condicionamento. “Dentre os principais benefícios da prática de exercícios regulares em ambientes externos, podemos destacar a melhora do sistema cardiorrespiratório, fortalecimento muscular, aumento do gasto calórico, além da exposição moderada ao sol, contribuindo para a síntese de vitamina D, importante para os ossos”, pontua.

A busca por esses benefícios se reflete diretamente no crescimento de modalidades ligadas ao mar, especialmente o surfe. Em praias da capital e da região metropolitana, escolas e grupos organizados registram aumento expressivo de alunos durante o verão. Proprietário da Natal Free Surf, Diego Melo relata que, nesta época do ano, a procura cresce de forma significativa. “O verão aumentou bastante a procura por aulas de surf. Hoje, estamos dando aulas de surf para cerca de 30 alunos por dia. Na maioria, crianças de 7 a 10 anos e jovens de 16 a 24. Mas também aparecem alunos de até 60 anos. Estamos com 90 alunos cadastrados pra janeiro”, detalha.

Ele explica que a escola trabalha com pranchas recomendadas pela Associação Internacional de Surf e com instrutores que priorizam tanto a técnica quanto a segurança. “O surf é um esporte completo e traz inúmeros benefícios aos praticantes. Além da parte física, tem o contato com a natureza, que proporciona bem-estar. O verão é uma excelente época pra começar, pois nessa época o mar fica um pouco mais calmo, proporcionando ondas mais suaves”, ressalta. Hoje, as atividades da escola estão focadas na Praia de Cotovelo, localizada em Parnamirim, na região metropolitana de Natal.

A vivência dos alunos confirma esse cenário. Arthur Andrade, 22, começou a surfar há cerca de dois meses e relata que a experiência foi determinante para transformar o interesse antigo em prática regular. “A ideia é que, a partir da primeira aula, você já fique em pé. E realmente, na primeira aula você fica em pé”, conta. Para ele, o surfe passou a ocupar um espaço de lazer e quebra da rotina. “Pretendo levar para o futuro como um hobby mesmo. É bem legal”, resume.

Histórias semelhantes se repetem entre jovens que encontram no verão a oportunidade de dar o primeiro passo. Júlia Deschen, 19, conta que o desejo de surfar surgiu ainda na infância, mas só se concretizou recentemente. “Eu sempre quis, na verdade. Desde criança, desde que eu tinha uns 11 anos. Só que a minha família é zero surfista”, relata. O incentivo de amigos e o ambiente mais favorável contribuíram para a decisão. “Demorou mais do que eu gostaria, mas tem sido muito bom e pretendo continuar”, afirma.

Para a Federação de Surf do Rio Grande do Norte, o aumento de praticantes durante o verão representa mais do que um movimento passageiro. O presidente da entidade, Saturnino Borges, avalia que o período funciona como porta de entrada para a consolidação do esporte. “O verão geralmente é quando as pessoas começam a surfar. É um esporte muito sadio. Um esporte democrático, tem do rico ao pobre. Na praia, todo mundo se encontra”, afirma.

A paixão pelo surfe nas águas potiguares não é novidade. A modalidade vem trazendo projeções nacionais e internacionais em atletas como Ítalo Ferreira, que entrou para a história ao conquistar a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Na elite nacional, Mateus Sena encerrou a temporada 2025 entre os principais nomes do país, com destaque no Dream Tour, enquanto Jadson André celebrou, na Praia de Ulé, o título do Qualifying Series da World Surf League em 2025. Entre as novas gerações, o RN também ganhou projeção mundial com Davi Lima, de 15 anos, campeão mundial de parasurfe na Califórnia, também no ano passado.

Verão também funciona como uma porta de entrada para a prática do surfe | Foto: Alex Régis

Se o surfe domina o cenário das praias, os esportes de areia vêm ampliando seu espaço para além do litoral. Em clubes e arenas especializadas, beach tennis e vôlei de praia atraem públicos diversos e mantêm movimento ao longo de todo o ano. Sócio do Village Beach Tennis, Fábio Pereira explica que o crescimento não se deve apenas ao verão. “O que percebemos é que havia uma demanda reprimida por esportes de areia. O que não tinha suficiente eram locais adequados para receber esse público”, afirma. Com a multiplicação dos clubes, a prática deixou de ser sazonal. “Agora não. Com o crescimento do beach tennis, do futevôlei e somando-se o vôlei de praia, os clubes se multiplicaram e hoje podem ser praticados durante o ano todo”, completa.

No caso do beach tennis, a modalidade tem se consolidado como porta de entrada para a atividade física. A professora Mônica Gherardi observa que muitos alunos chegam sem histórico esportivo. “Muitos alunos que eram sedentários iniciam no beach tennis na intenção de achar um esporte que eles gostem e acabam se encantando”, relata. Para ela, a inclusão é um dos principais diferenciais. “Crianças até pessoas de mais idade conseguem praticar. É um esporte relativamente fácil, tem vários níveis”, explica.

Beach Tennis vem se consolidando no RN | Foto: Adriano Abreu

O vôlei de praia segue trajetória semelhante. Preparador de atletas, Carlos Richardson, mais conhecido como Carlão Coach, destaca que a criação de espaços estruturados mudou o perfil e a frequência dos praticantes. “Devido ao aparecimento dos clubes com quadras específicas para o vôlei de praia, o número de praticantes aumentou”, afirma. Segundo ele, os benefícios vão além do físico. “No nível mental, o foco, com certeza, é o maior ganho, mas a redução do estresse e da ansiedade, visivelmente, consigo observar nos praticantes”, relata. Para os iniciantes, a principal recomendação é evitar excessos. “Minha dica é começar aos poucos”, orienta, ao alertar para o risco de lesões na areia.

Nas ruas e parques, a corrida de rua completa o leque de esportes mais procurados no verão. Idealizador da STI Runner, José Eriberto, o Betinho, aponta que a praticidade explica o crescimento. “Correr é uma atividade acessível que não requer equipamentos caros ou espaços específicos, podendo ser praticada em ruas, parques e praias no verão”, afirma. A assessoria atende hoje mais de 800 alunos, em sua maioria adultos entre 35 e 45 anos. A dinâmica em grupo, segundo Betinho, faz diferença na adesão. “A corrida em grupo é ponto importante primeiro pelo compromisso, depois pela motivação, segurança e socialização desse aluno”, diz.

“Quero começar um esporte. E agora?”

Para quem sente o impulso de aproveitar o verão para sair do sedentarismo, mas ainda tem dúvidas sobre como dar o primeiro passo, a orientação profissional é decisiva para transformar a intenção em prática segura e contínua. O educador físico Fernando Oliveira explica que o ponto de partida deve ser o cuidado com o corpo e o respeito aos próprios limites, independentemente da modalidade escolhida. “Independentemente de estar iniciando ou já ter um tempo de treino, é essencial ter a orientação de um profissional”, afirma. Segundo ele, o acompanhamento adequado permite montar um treino compatível com o nível de condicionamento, os objetivos e possíveis limitações individuais, reduzindo riscos e aumentando os resultados desde o início.

No verão, alguns cuidados se tornam ainda mais importantes. Fernando destaca que a hidratação deve ser prioridade antes, durante e após a atividade física. “Para aproveitar o verão com mais segurança, o principal cuidado é beber bastante água. Hidrate-se antes, durante e após a atividade física, mesmo sem sentir sede”, orienta. Ele lembra que, em treinos mais longos, o uso de protetor solar, roupas leves e claras e acessórios como bonés ou viseiras pode ser necessário. “Sempre que possível, evite os horários mais quentes do dia, preferindo treinar pela manhã cedo ou no fim da tarde”, acrescenta.

Na escolha da modalidade, Fernando orienta que não existe uma regra única. Corrida, esportes de areia ou atividades aquáticas atendem a necessidades diferentes, variando em impacto e intensidade, mas o fator decisivo é o prazer. “O mais importante é optar por uma modalidade que seja prazerosa, segura e alinhada aos objetivos”, pontua. Para ele, transformar o exercício em hábito depende de regularidade, metas realistas e apoio profissional, fazendo com que a atividade deixe de ser obrigação e passe a integrar a rotina. Com praias, vias e equipamentos urbanos que favorecem a prática, Natal consolida o verão como um período de intensa movimentação esportiva.

Fonte: Tribuna do Norte